Notícias

Edição atual

v. 3 n. 5 (2018): PERSPECTIVAS - A REPRESENTAÇÃO EM ARQUITETURA

A partir de Alberti, o desenho começou a ser usado como principal meio de representação arquitetônica e ao longo dos anos se impôs como o instrumento definitivo de expressão do arquiteto. As transformações tecnológicas que ocorreram principalmente neste e no último séculos, impactaram diretamente, não só na representação em arquitetura, mas também e, principalmente, nos processos de criação e de visualização de projeto. A produção da representação gráfica no ambiente digital que hoje predomina grandemente frente aos meios analógicos possibilitou que a normatização se tornasse mais complexa e universal além de contribuir para o aparecimento e expansão de inúmeras novas ferramentas e possibilidades. A representação em arquitetura se encontra, há algum tempo, num hiato aberto em alternativas e múltiplas formas de olhar, analisar e expressar. Discute-se. Diverge-se.  Para alguns o desenho, por exemplo, está morto, para outros acabou de renascer

Com o tema: “PERSPECTIVAS - A REPRESENTAÇÃO EM ARQUITETURA” buscamos lançar discussões sobre ideias, inquietações e reflexões sobre o passado e o futuro da expressão da arquitetura em todas as suas modalidades.

O que resulta dessa edição é um caleidoscópio de ideias que refletem a diversidade de abordagens sobre diferentes aspectos da representação, do que é, porque é e de como é, portanto, representado. Tendo a arquitetura como plano de fundo comum, são exploradas dimensões de como sua interpretação física está intrinsicamente relacionada ao ato de projetar, como apontam os autores José Barki (UFRJ-RJ), James Miyamoto (UFRJ-RJ) e Rodrigo Paraizo (UFRJ-RJ), a partir da proposição de agrupamentos quanto aos modos de ação propostos (análise, argumentação e construção) e suas relações de complementariedade e simultaneidade. De forma semelhante, Artur Simões Rozestraten (USP-SP) apresenta reflexões sobre a natureza das representações, detalhando limitações e potencialidades, além de suas possíveis interações entre as diferentes possibilidades de estudos gráficos sobre uma obra. Por fim, Rozestraten indica, assim como Barki, Miyamoto e Paraizo, para a crescente tendência tecnológica da representação exposta por Ernesto Bueno (Universidade Positivo-PR) que, por sua vez, apresenta uma cronologia baseada no desenvolvimento de softwares experimentais de 2003 a 2014 e como esta evolução interfere nos projetos de arquitetura. Por outro lado, Maria Paula Recena (UFRS-RS) e Daniel Dillenburg (UniRitter-Mackenzie) sugerem uma nova perspectiva sobre a produção arquitetônica, tendo em vista a difusão da produção da computação gráfica, baseada no estudo de caso do material gráfico produzido pelo arquiteto Daniel Libeskind para o Museu Judaico de Berlim.

Por outra ótica de comunicação de uma obra arquitetônica hoje, chega-se a um entendimento sobre a importância de instrumentos que permitem o despontamento da arquitetura como imagem e favorecem sua compreensão como objeto construído. Neste caso, o artigo apresentado porPedro Engel (UFRJ-RJ) dialoga sobre a importância dos modelos físicos como estudo de ambiências a partir de fotografias, principalmente como prática acadêmica desenvolvida em ateliês da ETH Zurique. Enquanto César Bastos (UFRS-RS) problematiza a fotografia como possível ferramenta para a criação de realidades múltiplas de uma mesma arquitetura. E, finalmente, o questionamento da imagem articulado por Betty Mirocznik (USP-SP) a partir da arquitetura fenomenológica de Peter Zumthor, apontando novas direções para a obsessão contemporânea pela representação espacial a partir da visão.

Numa linha de pensamento semelhante, Ana Teresa Villela (Universidade Estácio de Sá-Ribeirão Preto) e Rodrigo Gutierrez (Universidade Estácio de Sá-Ribeirão Preto) pesquisam como os desenhos de duas estações ferroviárias da Cia. Mogyana ajudaram a constituir um imaginário coletivo de Ribeirão Preto, já que ambas simbolizaram a noção de modernidade para a cidade. E, tendo em vista, a perspectiva como constituição sócio-histórica, o contraponto estabelecido entre a tradução do texto de Samuel Y. Edgerton, originalmente publicado em 1976 e a crítica teórica de Vanessa Rosa (Universidade Anhembi Morumbi), cuja abordagem gira em torno da perspectiva linear a partir da influência árabe no Renascimento italiano.

Já como condição específica, Luciana Nemer (UFF-RJ), André Thurler e Igor Klein (UFF-RJ) investigam a pertinência da figura humana na construção de ambiências diversas ao se representar uma arquitetura específica, como composição própria e fundamental do trabalho.

Por fim, Verônica Natividade aborda o desmantelar do Paradigma Albertiano através de três aspectos da síntese digital contemporânea: o fim da compressão de dados dos desenhos bidimensionais em favor dos modelos de informação, a ampliação da janela perspéctica para a visualização imersiva da realidade virtual; e a fabricação digital, diretamente dos computadores para os braços robóticos.

Convidamos, então, nossos leitores a olhar por essa camera obscura através dos artigos de nossos colaboradores e esperamos que estes suscitem novas interpretações e contribuições para atuais e futuras discussões que, certamente, reservam, ainda, muitas e impensáveis novidades. Afinal, conceituar o que simboliza a representação é enredar-se por um universo metalinguístico proposto a diversos autores. 

Boa leitura!

James Miyamoto e Silvio Dias
Editores do nº 5

Publicado: 2018-12-27
Ver Todas as Edições