Dados à Prova D’água: ciência cidadã e a construção social do risco na educação básica em Petrópolis (RJ)

Auteurs

Résumé

Os eventos extremos, cada vez mais associados às mudanças climáticas, colocam o risco e a vulnerabilidade como dimensões centrais para a reflexão sobre o espaço urbano e suas dinâmicas socioespaciais, entrelaçando questões de classe e interesses de diferentes agentes sobre o território. Nesse contexto, a Geografia, enquanto ciência e disciplina escolar, e, em especial, a Geografia do Clima, oferecem bases teóricas e analíticas para compreender as interações entre sociedade e natureza, contribuindo para o desenvolvimento de um pensamento espacial crítico e para a leitura da realidade socioambiental vivida pelos estudantes trazendo a centralidade da produção do espaço. Com base nesse referencial, este trabalho tem como objetivo analisar, sob uma perspectiva geográfica, o projeto Dados à Prova D’Água, fundamentado nos princípios da ciência cidadã e desenvolvido no ensino fundamental II, com uma turma do 9º ano da Escola Liceu Carlos Chagas, em Petrópolis/RJ. O projeto estrutura-se em dois conceitos-base, ciência cidadã e risco, e organiza-se em três eixos: (i) construção de oficinas temáticas, incluindo a elaboração de pluviômetros e produtos cartográficos; (ii) análise da percepção de risco em contexto escolar, com aplicação de questionários (n=102); e (iii) mobilização da comunidade escolar. Os resultados evidenciam que a percepção do risco entre os estudantes está fortemente associada às experiências vividas e ao contexto local, sendo marcada por sentimentos como medo, tristeza e preocupação. Verificou-se que 57% dos estudantes consideram a escola localizada em área de risco, 63% desconhecem medidas preventivas adotadas pelo colégio Liceu Carlos Chagas Filho e 75% nunca participaram de treinamentos voltados à prevenção de desastres. A análise espacial da precipitação revelou a distribuição não uniforme das chuvas, permitindo relacionar padrões pluviométricos a fatores geográficos, como relevo e cobertura vegetal. Além disso, os mapas elaborados pelos estudantes indicaram áreas de risco coerentes com características físicas da paisagem e com suas vivências cotidianas, evidenciando a articulação entre conhecimento empírico e percepção socioespacial. A integração entre métodos quantitativos e qualitativos mostrou-se fundamental para o entrecruzamento de diferentes percepções sobre os processos socioambientais, contribuindo para a compreensão do risco como construção social e para a desnaturalização dos desastres. Dessa forma, o estudo reforça o papel da Geografia, com ênfase na Geografia do Clima, e da ciência cidadã na formação de sujeitos críticos e na construção de uma cultura de prevenção, destacando a relevância de uma abordagem socioclimática e integradora no Ensino de Geografia física.

Palavras-chave: Eventos Extremos; Chuva; Risco; Geografia; Ciência Cidadã.

Abstract

Extreme events, increasingly associated with climate change, place risk and vulnerability at the center of reflections on urban space and its socio-spatial dynamics, intertwining issues of class and the interests of different agents over the territory. In this context, Geography—as both a science and a school subject—and, in particular, Climate Geography, provide theoretical and analytical foundations for understanding the interactions between society and nature. This perspective contributes to the development of critical spatial thinking and to students’ ability to interpret their lived socio-environmental reality, emphasizing the centrality of the production of space. Based on this framework, this study aims to analyze, from a geographical perspective, the project Dados à Prova D’Água (Data Put to the Test), grounded in the principles of citizen science and developed in middle school education with a 9th-grade class at Liceu Carlos Chagas School in Petrópolis, Rio de Janeiro, Brazil. The project is structured around two core concepts—citizen science and risk—and organized into three main components: (i) the development of thematic workshops, including the construction of rain gauges and cartographic products; (ii) the analysis of risk perception in a school context through questionnaires (n = 102); and (iii) the engagement of the school community. The results show that students’ perception of risk is strongly associated with lived experiences and local context, marked by feelings such as fear, sadness, and concern. It was found that 57% of students consider the school to be located in a risk area, 63% are unaware of preventive measures adopted by the school, and 75% have never participated in disaster prevention training. Spatial analysis of precipitation revealed a non-uniform distribution of rainfall, allowing the identification of relationships between precipitation patterns and geographical factors such as topography and vegetation cover. Furthermore, the maps produced by students indicated risk areas consistent with the physical characteristics of the landscape and their everyday experiences, highlighting the articulation between empirical knowledge and socio-spatial perception. The integration of quantitative and qualitative methods proved essential for combining different perspectives on socio-environmental processes, contributing to the understanding of risk as a social construct and to the denaturalization of disasters. Thus, this study reinforces the role of Geography—particularly Climate Geography—and citizen science in fostering critical thinking and building a culture of prevention, emphasizing the relevance of a socio-climatic and integrative approach in physical geography education.

Key words: Extreme Events; Rainfall; Risk; Geography; Citizen Science. 

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Publiée

2026-08-11